segunda-feira, 11 de maio de 2009

Rodeada de quê?


Tem uma música do Oswaldo Montenegro (passei o atestado) que chama “Sempre não é todo dia” e diz: “Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia. Eu acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia”. E a cada vez que ouço (geralmente da boca incauta de um adolescente) que vai amar, odiar, chorar, sofrer, curtir, dançar e qualquer outra coisa pra sempre, eu lembro da música.
Lembro também das inúmeras vezes nas quais vivi estas sensações de eternidade e elas vão ficando cada vez mais distantes na medida em que amadureço. Não sou tão pretensiosa, nem tão madura: ainda quero algumas coisas para sempre a despeito de qualquer lógica estraga-prazeres.
Mas também recebo bem sensações finitas porque elas são confortáveis: gosto de momentos de solidão, suporto dias ruins, dores, raiva, formaturas e ressaca porque – olha que máximo! – não duram pra sempre. Mesmo as coisas deliciosas são tão boas porque acabam. Um jantarzinho romântico, vinho e meia-luz, é ótimo! Todo dia, é uma merda. Quando que tu vais colocar um abrigo velho e ver um filmezinho à toa, sem compromisso com o amor?
Eu gosto mesmo é de estar rodeada de tudo que acaba, de tudo que eu lembro, do que é momento e do que parece eterno. Aí, na hora eu posso ter a liberdade de sentir o que quiser e de poder ser diferente. De ser como eu sou sempre, mas ainda bem que sempre não é todo dia.

2 comentários:

  1. Os hedonistas, lá pelas tantas, questionaram: se o prazer continua, continua prazer?

    Não por acaso a eternidade cristã não é uma vida quotidiana "para sempre", é um estado atemporal de contemplação e regozijo que, se pensarmos como qualquer algo sensorial constante, uma felicidade permanente, rapidamente tendemos a chegar à imagem de alguém com um ar abobado e babão não muito digno ou desejável, ainda mais por toda a eternidade.

    Não por acaso volta e meia nos lembramos de algo que ocorreu há vários anos ou décadas e pensamos "mas parece que foi ontem... como passou rápido..."

    Não passou rápido. É que vivemos as horas, os dias... Se tentamos pensar em termos de semanas ou meses isso já é muito abstrato. Há, talvez, alguma "sensação" de semana, mas de mês, verão, ano, são abstrações do calendário

    E, por fim, morremos. Nada humano é eterno e não temos senão uma idéia ainda mais abstrata do que a dos meses e anos do seja a eternidade que, aliás, não existe. Para a eternidade existir temos de supor uma perspectiva atemporal que contemple toda a eternidade como algo consumado. É o velho problema do infinito atual.

    Para nós, humanos, só são pensáveis intuitivamente infinitos virtuais. Por exemplo, se pensamos na série de números naturais, já chegamos a alguns paradoxos se a tratamos como um infinito atual. Quer ver? Responde aí se a série toda dos números naturais é maior do que a dos números pares. A princípio, tendemos a dizer que, claro, há o dobro de números naturais do que de números pares... mas se ambas séries são infinitas, qual é a maior?

    Claro que se pode trabalhar com alguma abstração que evite a triviliazação dessas questões, mas aí estaremos trabalhando com definições que pouco terão a ver com as genuínas noções de finito e de infinito. Nesse sentido, quando vemos, não falamos mais do tempo, do espaço, da matéria, da solidez e "na verdade", tudo é outra coisa. Levar isso a sério é loucura - e, mais tragicômico, a loucura adora pegar conceitos e os usar fora do contexto, como é notório com a física quântica, que por não ser entendida de modo amplo ou orgânico nem pelos especialistas, é ótima para dar ares científicos para coisas sem sentido. Afinal, quem poderá desmentir alguma bobagem dita a respeito? E se alguém puder desmentir e apontar uma bobagem, quem vai saber se ele realmente desmentiu e apontou uma bobagem ou apenas disse outra?

    Enfim, somos criaturas finitas, muito limitadas, fadadas à morte. Costumo dizer que se pudermos viver milhares de anos, se explicitará um fenômeno oposto ao do conceito deveras ilusório de reencarnações: um mesmo corpo abriga ao longo do tempo diversas mentes (ou almas, para quem quiser as complicações metafísicas disso) ao longo de uma vida suficientemente longa - e não precisa muito... talvez algumas horas.

    Temos apenas a ilusão de sermos os mesmos ao longo das horas, dias, semanas, meses, anos e, conforme a tecnologia avance, talvez séculos ou mais. Mas apenas nos une sob a mesma identidade pessoal a memória.

    Não deve haver muitos átomos originais em meu corpo, desde minha concepção... e tampouco sinto, penso ou me comporto do mesmo modo. E estar vivo, vivo no sentido humano e assim para nós relevante de estar vivo é principalmente variar.

    Mas tenta explicar isso para o cônjuge...

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  2. Régis, eu que sempre gostei de me classificar como hedonista, embora seja muito responsável para viver o conceito integralmente, acho mais que legítimo o questionamento. Acho mesmo que este conceito, como tantos, só se forma pela ideia da situação adversa. Eu só posso me dizer hedonista porque sempre vivi situações finitas de prazer, então almejo prolongá-lo. Nunca experimentei (conscientemente, ao menos, pra não me dizer de todo cética)a felicidade letárgica proporcionada pelo paraíso eterno.
    Mas nos colocamos questões pessoais de fé para que tenhamos um GPS na vida. Eu tenho fé na transformação constante e enlouquecida da matéria e dos estados sensoriais e emocionais, seja qual for a essência pela qual se formam ou a força que os movimenta.
    Sou levemente diferente de hoje pela manhã e praticamente "Carrie, a estranha" em relação há 10 anos atrás. Algumas familiaridades, as memórias.
    Quanto a explicar isto para o cônjuge, concordo contigo: é difícil, mas dá pra encontrar um jeito. O meu foi sinalizar periodicamente que, apesar do susto das minhas transformações, a intenção permanece a mesma: aquela de continuar junto para sempre (seja lá o tempo que isto possa representar).

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