Nunca me senti confortável com este teu cabelinho liso cheio de tic-tacs e as canetas coloridas que carregavas junto ao teu caderno completo. Não gostava das tuas regras gastronômicas, do teu alface e queijo minas. Achava uma hipocrisia quando tu enchias a cara na noite e no outro dia dizias que não lembrava das cagadas que tinhas feito. Tua busca pelo namorado com o qual casarias – e essa paranóia por casamento – me enchiam o saco.Sentia faíscas no teu olhar quando percebias que dentro de toda minha imperfeição estava num dia melhor que o teu. Afinal, dizia Paulo Gaudêncio, que nada pior para um santo que a felicidade de um pecador. Aí parei, não convivia mais contigo. Pra não me irritar. Porque sabia que não era contigo que eu gostaria de conversar.
Adiantou na medida em que não mais te vi e, pra mim funciona a máxima de que o que os olhos não veem o coração não sente. Retiro facilmente o passado desagradável da minha vida. Mas basta mostrar uma foto, te ver de longe ou saber de ti que volta a sensação desconfortável de saber que não sou boazinha, que não sigo tuas regras, que não como salada todo dia, que encho a cara e lembro de tudo depois. Mas a compensação é maior que a culpa, então sigo com meus pecados. Porque a culpa é só de um ideal que formei e não segui e a compensação faz parte das escolhas pelas quais trabalhei. De fato, não gosto mesmo de ti. Sou assim.
Na medida em que vejo o que não quero, sei o que me seduz.
"Concluo que, para ser eu mesma, necessito da luz dos olhos de terceiros, e por isso não posso estar completamente seguro daquilo que eu sou."
VIRGINIA WOOLF, As Ondas, p.86

Lemba da nossa adaptação:Joana = AA
ResponderExcluirEu não gosto de Joana
Joana tem uma cara esquisita
Joana tem uma risada careta e maldita
Eu não gosto de Joana
Joana tem uma cara esquisita
Joana tem uma risada careta e maldita
Eu não gosto de Joana
Joana tem uma cara esquisita
Joana tem uma risada careta e maldita
Eu não gosto das suas unhas
E seu jeitinho de ainda vencerei
Joana é meu problemática
Perde tempo estudando física matemática
Joana lá com seus cadernos
Joana lá com seus cadernos
Olha eu detesto a Joana
E seu rosto pálido de batom rosa
Joana nem gosta de prosa
Joana implica quando eu ponho Billie Holiday na vitrola
Joana não gosta quando eu escuto Billie Holiday na vitrola
Joana emburra quando eu escuto Billie Holiday na vitrola
Joana lá com seus cadernos
Essa é a canção que eu fiz no dia que tirei
pra falar mal de Joana
Dedico também minha implicância
A essa canção sem importância
Mas sei que seremos eternos
Eu
Billie Holiday
E Joana lá com seus cadernos
Bah... enquanto realmente não gosto de alguém, é como se estivesse amaldiçoadamente preso à tal pessoa. É uma espécie de paixão, no sentido de algo que se sofre. Mal curada paixão.
ResponderExcluirMais alegoricamente, não tenho grande problema com meu eu idealizado do qual divergi excessivamente. Pois é muito, mas muuuuito improvável que eu encontre alguém que tenha seguido minha idealização e, assim, irrite-me ao esfregar na minha cara o meu fracasso (ou minha hipocrisia). Hum... na verdade acho que não hostilizaria, mas sim admiraria, sinceramente, alguém que tivesse seguido o que eu gostaria de ter sido e não fui.
Aliás... sou muito naricisista: acho que gostaria também muito de alguém que tivesse errado como eu errei, hehe...