terça-feira, 3 de novembro de 2009

Porque tudo acaba em Neruda



Então... quando a Paula viaja fico melosa, nostálgica, passo fome (porque a preguiça é maior que a fome), bebo mais do que deveria, durmo tarde e tenho ataques de hiperatividade. Hoje, ainda nos dois primeiros sintomas, acabei recorrendo ao Neruda. Primeiro porque, assim como ter nossa música, foi nosso poeta de início ((muito mais meu do que dela que nem é muito chegada a esse tipo literário)). Mas, em segundo lugar, e provavelmente a razão mais forte, porque penso que não houve poeta que falou mais no amor. Neruda fala tanto que ama, que amou, que amava, que amará e o quanto este sentimento é importante e forte que cabe, facilmente, em qualquer declaração de amor. Neruda é, pois, um poeta ideal para início de relacionamento. Descubra-o no início, usufrua durante e use-o, descaradamente, toda vez que quiser declarar teu amor. Assim, desse jeito:

((Teca))


"É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada.
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que eu preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro."

Pablo Neruda



Ter opinião é tudo!


Seu Jorge é o cara! Até aí morreu Neves... Mas resolveu juntar com o Selton... e a coisa ficou melhor ainda.

Vai lá e confere:http://www.youtube.com/watch?v=Fknp2aDXQyU
Deixa de ser preguiçoso (a)... já que vai no youtube, olha outras coisas do cara. É o que há de bom!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O desrespeito à dica da proporção

Seja lá que crença você tenha e que explicação adote para a Criação, não ignore a dica da proporção! É inegável que nosso corpo é uma máquina perfeita, cheia de engenhosos mecanismos e elaboradíssimos sistemas de comunicação, trabalho em equipe e sentido de organização. Tudo em nosso organismo tem uma razão de ser, é só prestar bem atenção para entender o porquê das coisas que ali estão.
Bom, quero dizer que mesmo diante de tanta evidência de que tudo foi feito na medida, muita gente - e eu inclusive - ignora a importância de ver e ouvir antes de falar. O que levou a Ana Carolina a dizer que "compensando a anatomia, o povo fala sem ter dó, são dois olhos, dois ouvidos, mas a boca é uma só" e o que me leva a transcrever uma historinha muito da bonitinha que tirei do Orkut de uma amiga e que dá um tapa de luva na gente quando soltamos a matraca a falar de proezas ou, nos serve de estímulo quando queremos nos recolher e fazer mais do que dizer o que se fez. É assim:
"Carroça vazia
Certa manhã, meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer.
Ele sentou numa clareira e depois de um pequeno silêncio me perguntou:
-Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?
Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:
- Estou ouvindo o barulho de carroça...
- Isso mesmo, é uma carroça vazia.
- Como pode saber se a carroça está vazia se ainda não a vimos?
- Ora, é muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que ela faz.
Tornei-me adulto e, até hoje, quando ouço uma pessoa falando demais, gritando demais, tratando o próximo com grosseria, prepotente, interrompendo a conversa de todo mundo e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir a voz de meu pai dizendo: Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz..."

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A vida numa folha de papel


Minhas fases são determinadas pela dinâmica que estabeleço com as folhas e os textos. Existe a fase de escrever, a de ler e a que não faço bosta nenhuma - que é aquela que indica que minha vida está uma bagunça.
Pela data das postagens eu poderia estar na última fase.Não seria nenhum espanto: eu sou a desorganizada mais fake que existe. Para os outros, muito produtiva. Para mim, nem tanto. Pode ser que isto nem seja tão falso assim e talvez eu seja apenas uma vítima das minhas altas expectativas. Considerando a média, eu posso até produzir mais que os outros. Mas não é consolo para minha auto-tirania.
Anyway, o fato é que estava mais para a segunda fase - e isto me consola. Li muito neste último mês e reorganizei minha cabeça através dos personagens que conheci e das situações que visitei. É estimulante - até demais pra mim. Minha cabeça não cessa nunca e as ideias brotam na velocidade da luz. Minhas ações não chegam nem perto da velocidade do jabuti, se fizer uma comparação grotesca. Aí eu tenho que selecionar o que vai caber nas ínfimas 12 horas aproveitáves do meu dia. E esta é a parte mais difícil.
Então, de vez em quando, minhas ausências aqui se justificarão pela minha presença em outra foha de papel, em outro texto, em outros personagens e novos cenários. Vou organizar o roteiro de uma história que não cabe numa folha. Por puro prazer de poder escrever diferente. Aí, depois, eu venho e conto tudo. Por puro prazer de poder dizer diferente.
Até mais.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A menina má e a ética do dever

Tá certo. Por vezes queremos bagunçar a vida, chutar o balde, esvaziar a cabeça e encher os canecos. Até acho que a maioria das pessoas faz isso com alguma freqüência porque agora “desestressar” franqueia um monte de comportamentos reprimidos. É a desculpa dos adultos pra poder despiroquiar um pouco. Mas ainda assim, há um limite estabelecido. Você pode ser um pouco má – é até charmoso – você não pode é ser “marvada”.
Então, o que limita nossas ações? Oras, o de sempre: a necessidade de viver em grupo e, eventualmente, depender de outras pessoas, afetiva ou materialmente. A gente acaba dependendo da avaliação de outras pessoas, desde as que não gostamos até as que queremos, ardentemente, que nos admirem e amem. É por isso que não rompemos com o imperativo categórico e seguimos tentando alcançar máximas aceitáveis que não façam as pessoas nos banir do convívio social.
Não precisamos falar em Kant, afinal, nossos pais reproduziam exemplos melhor que ele: “Nunca se sabe o dia de amanhã!”, ou “Você gostaria que fizessem isto contigo?”, ou ainda, “Deixa, quando você tiver filhos, vai ver do que eu tô falando!”.
Depois, quando crescemos um pouco mais, os exemplos abstraem-se, mas permanecem: “Tudo o que você faz, volta pra você!”, “Bem feito! Cuspiu pra cima, viu só?”.
E de repente, a menina má deixa de ser tão má assim.
Bom, é uma série de repetições que nos coloca na linha e nos enche de culpa. Mas também é isso que faz com que tu pagues o dinheiro que me pediu emprestado ou que eu tenha motivos pra não te emprestar mais; ou que faz com que eu vá ao teu aniversário, mesmo quando é final de campeonato, ou que te impele a me oferecer um pedaço do sanduíche que tu tá amando comer sozinha.
Mas, se por acaso, um dia, alguém de nós sair um pouco do roteiro, tudo bem. Isto é pimenta, dá um pouco de tempero à vida. Aí vamos reclamar mutuamente, nos chamaremos de egoístas, loucas, exporemos nossos motivos, ficarei emburrada por mais tempo que tu porque sou má. Mas voltaremos às boas, afinal, sou apenas um pouco má.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um bom amor


Já tive coisas de todas as medidas na minha vida. Não que tenha vivido muito ou quase tudo (isso nem é possível), mas procuro viver intensamente. Então, como ia dizendo, já experimentei diferentes medidas de vários sentimentos, desde o muitíssimo ruim até o maravilhoso. Também experimentei diferentes durações de um mesmo sentimento: de algumas horas a alguns anos. Experimentei coisas até que nem lembro, que eu mesma joguei fora, deliberadamente.
Oito anos depois de ter experimentado te colocar na minha vida eu consigo ver que esse amor é alguma coisa que inunda todos os cantos dela. Não há escapatória: onde eu olho, enxergo ele. E gosto. É como o filme e o livro preferido que eu já conheço, mas amo tanto que não canso de revisitá-los.
É um amor que não cansa, não desmerece, não judia, não faz mal, não compara, não atrapalha, não some e não cessa. É um amor que se reinventa, que anda junto, que entende, que concede, que olha pra longe.
Tu és o meu kit de química que nunca tive!!! Tu és a experiência que me orgulho todo dia de ter feito. Mudou minha vida de um jeito bom. Tu és meu amor do bem porque tudo em ti faz bem pra mim. Porque eu reconheço que no teu dia, em todos eles, nas coisas que tu faz, tu tá pensando em me fazer feliz. E não tem nada que me comova mais do que ver que tu gosta de fazer “por mim”. Amor com dedicação, sem obrigação é algo raro. Nós temos.
Então, correndo o risco de ficar super, mega, blaster bregueira ((não blogueira)), vou parar... já estou quase recorrendo às canções.
Eu te amo pra oito, pra mais oito, pra além do tempo.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando a gente se reconhece

Só dá para abrir espaço para o Caio, que descreve perfeitamente o conforto de se ver no outro. O reconhecimento, entretanto, não obsta a surpresa da descoberta de se ver diferente, com outras experiências que jamais foram suas.

Trecho de Aqueles dois
(Caio Fernando Abreu)

“A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.
Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.”

domingo, 7 de junho de 2009

Não é triste, é sério.


O amadurecimento precisa ser triste? Não consigo acreditar nessa necessidade de sofrimento para que possamos alcançar o crescimento. Acho que isso é uma idéia de quem não consegue aceitar que coisas tristes existem e só. Querer ser feliz todo o tempo equivale a perseguir a paz mundial. Não vai acontecer. Essa discussão sequer me chama atenção.
Mas mesmo que saibamos que isso acontece, surpreende a inconformidade das pessoas diante de um rosto que não sorri. Não é desejável nem ver, nem pensar. Em algumas situações, não é nem tristeza, é só recolhimento.
Aconteceu comigo. Eu estava séria, não triste nem emburrada. Quieta. Estava pensando em coisas importantes pra mim. Mas vi que as pessoas reagiam a isso: as que me amavam, preocupadas; as que me conheciam, curiosas; e algumas outras, pra catar mesmo. Mas todos queriam saber o que estava acontecendo. Como explicar? Deu vontade de dizer: não é triste, é sério... tô amadurecendo. Mas não deu pra fazer isso. Seria mais confuso do só dizer que estava triste mesmo. Aí fui preguiçosa, disse que estava cansada. Ninguém questiona muito se tu diz que ta cansada. A não ser que tu seja vadia e não faça nada nunca, esse é um argumento válido. Cansaço tem seu mérito.
Mas é assim, preciso avisar a todos: às vezes, amadureço em público. Não fiquem surpresos, agradeço a preocupação e aprecio este carinho. Quando eu estiver triste mesmo, vou fazer uso do colo oferecido porque não recuso um dengo. Mas se eu agradecer e disser que está tudo bem, confiem em mim. Não é triste, é sério.

“Junto dele, Maurício ria também, mas assim – sozinho –, o que sentia era medo. Medo misturado a um pouco de respeito, desconfiança. Os homens quase todos de caras barbudas, olhares sérios. As mulheres de ares meio masculinos, rostos sérios. Todos sérios.” (Caio Fernando Abreu, Limite Branco, p.65)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A fome e a vontade de comer


Adri,
Achei esta foto no Orkut de uma aluna nossa com a seguinte legenda: “Adriana e Cintia minhas professoras prediletas desse anoo amoo muiito elas e elas vão me passar esse ano né profs”.
Óbvio que comentei a foto e escrevi: “Depois dessa!!!! É bem provável que sim... vai alimentando teu álbum aí e dizendo como nós somos queridas q tu passa certo!!!! ((Se tirar A na nossa matéria tb ajuda!) =D “
Depois, revendo ((sou uma revisora contumaz)), me dei conta que tanto a foto como o diálogo que acompanha não poderia ser mais fiel à nossa rotina. Nos vemos diariamente com esta tranquilidade aí de cima: o encontro é sempre um momento zen, mesmo no meio da maior loucura possível e acaba, invariavelmente, com bom humor. Temos nossos momentos de filosofar, de questionar, de encaixar as informações e, no final, de fazer piada do que falamos. É fácil.
E quem foi que apostou nesta parceria? Nem eu jogava 10 pilas aí. Tínhamos simpatia recíproca, mas aparentemente, poucas coisas em comum. Aliás, a aparência dá outro toque especial e contraditório: tu, alta, super imponente, mas de voz mansa e uma calma quase budista; eu, pequena, mas de voz rouca que não acalma, que vira trovão. Tu, brisa e eu, tempestade. Mas funcionamos bem por causa de nossas diferenças: não sabemos as mesmas coisas, não interpretamos do mesmo jeito, mas ouvimos uma à outra e adoramos o que aprendemos com nossas informações divergentes.
Pensei que seríamos crias da Rosalí e que manteríamos aquela cordialidade de quem compartilhou a mesma fonte de conhecimento. Mas foi justamente a saída dela que formou esta nova dupla. E ela é tri faceira com isto. Deve estar adorando nos ver trabalhando juntas porque somos o extrato daquilo que ela pretendia: conhecimento desprovido de preconceito, alimentado pelas diferenças.
Eu, certo, tô tirando o maior proveito disso! Te adoro, te adoro, te adoro.
Beijocas,
Cíntia.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minhas pequenas misérias

Arrumar ali, fazer uma visita, copiar um arquivo, mandar um e-mail, ler um artigo, escrever, costurar um botão, limpar embaixo da geladeira, comprar um presente, pagar uma conta... É inacreditável a quantidade de poeira que entra na nossa cabeça através da rotina que não organizamos ou que não selecionamos.
Às vezes fico remoendo pequeninas tarefas que só passou pela minha mente fazer e as tomo como uma série de compromissos a cumprir. Aí minha cabeça fica parecendo um depósito de donativos para a campanha da fraternidade. Várias coisas num amontoado imenso, onde facilmente posso perder de vista o que é mais importante, mais útil. É preciso selecionar de tempos em tempos.
Fiz isso neste final de semana. Foi ótimo. Parece um verso de rimas previsíveis, mas fui à praia e olhei aquele mar de proporções gigantescas frente às minhas pequenas misérias cotidianas, e foi nisso mesmo que meus problemas se transformaram. Ganhei novo fôlego ao ver as coisas do tamanho que elas são: não sei se elas diminuíram ou se eu me engrandeci, mas ficou muito mais fácil.
Quando achei que o mar já havia sido inspirador o suficiente para que eu aprendesse o que estava reservado pra este final de semana, veio a lição de onde nem esperava: o cachorrinho do meu pai reforçou a lição de que a persistência conduz ao êxito.
O nome do cachorro é Cabeça. Ele é doido por fugir de casa e dar uma voltinha com seus amigos sem-teto. Toda vez que alguém entra em casa ele vai lá e testa o portão com a patinha para ver se consegue abrir. Já fugiu várias vezes. Não tem perigo, volta sozinho umas horas depois, fedendo muito. Estes tempos, contou meu pai, o Cabeça se aprimorou: ao ver a porta do carro aberta, entrou, apertou o botão do controle remoto e saiu rachando pelo portão que se abria lentamente. O cão virou um profissional das fugas!
Voltei da praia assim, tentando mais, resolvendo tudo mais fácil, com ideias fluindo melhor e sem tanta pressa. A vida já estava boa, agora com as coisas tendo sua importância mais aparente, minhas misérias ficaram do tamanho que elas realmente são. Mês que vem vou olhar o mar outra vez e fazer um carinho no Cabeça.

sábado, 16 de maio de 2009

Tô nem tchuns pra tua preguiça!

Pode até ser egoísta, mas tô me lixando pra tua preguiça. Já declarei que deixo algumas coisas para amanhã e que sou simpática ao hedonismo. E agora tu vens aí, atrapalhando meus planos. Como vou me entregar aos meus prazeres se pra isso eu preciso que tu ajas? Temos que entrar em um acordo. Intercalar nossas preguiças. Dias pares eu me entrego ao ócio, dias ímpares, tu.
Mas aí eu também já declarei que sou procrastinadora e mais, que tenho nervoso quando “não posso não fazer”. Se eu tiver que escrever nos dias pares, só terei inspiração nos ímpares. Sou do contra, além de tudo.
Então acho melhor nos afastarmos e deixar de criar falsas expectativas. Eu não farei o que tu queres e tu, tampouco farás o que desejo. Chega, acabou!
Mas aí também já declarei que não gosto de ser sempre do mesmo jeito, que me transformo dia-a-dia.
Façamos o seguinte: vamos contar justamente com o dia-a-dia, um de cada vez. De vez em quando eu posso te surpreender, outro dia serás tu a me presentear. Enquanto a gente quiser, não custa conferir.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mais do mesmo.

Tem um provérbio chinês que diz “Antes de pensar em mudar o mundo dê três voltas em sua casa”.
Há uma facilidade impressionante em resolvermos os problemas alheios e não enxergarmos os nossos. Conheço gente que se repete em suas atitudes de sabotagem – aos outros e a si - e consegue pensar que isso é uma de suas inúmeras qualidades. Pior. Consegue pensar que SÓ possui qualidades. Qualquer deslize foi falta de compreensão dos demais. E segue fazendo mais do mesmo.
Já me vi, igualmente, cometendo erros grosseiros quando já tinha os cometido e, portanto, já deveria ter aprendido com eles. Acho que porque naquele momento pensava que ter uma visão do mundo é ver o mundo ao redor, sem incluir-se. Aí a gente enxerga todos e não vê a si próprio. E critica todos e não entende porque as pessoas não agem como nós.
Na minha casa tem muito por fazer, mas é um lugar onde gosto de estar. Acho mesmo que ela permanecerá em constante reforma. Mas consegui uma equipe ótima: minhas relações são completas e imperfeitas como devem ser.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Eu realmente não gosto de ti.

Nunca me senti confortável com este teu cabelinho liso cheio de tic-tacs e as canetas coloridas que carregavas junto ao teu caderno completo. Não gostava das tuas regras gastronômicas, do teu alface e queijo minas. Achava uma hipocrisia quando tu enchias a cara na noite e no outro dia dizias que não lembrava das cagadas que tinhas feito. Tua busca pelo namorado com o qual casarias – e essa paranóia por casamento – me enchiam o saco.
Sentia faíscas no teu olhar quando percebias que dentro de toda minha imperfeição estava num dia melhor que o teu. Afinal, dizia Paulo Gaudêncio, que nada pior para um santo que a felicidade de um pecador. Aí parei, não convivia mais contigo. Pra não me irritar. Porque sabia que não era contigo que eu gostaria de conversar.
Adiantou na medida em que não mais te vi e, pra mim funciona a máxima de que o que os olhos não veem o coração não sente. Retiro facilmente o passado desagradável da minha vida. Mas basta mostrar uma foto, te ver de longe ou saber de ti que volta a sensação desconfortável de saber que não sou boazinha, que não sigo tuas regras, que não como salada todo dia, que encho a cara e lembro de tudo depois. Mas a compensação é maior que a culpa, então sigo com meus pecados. Porque a culpa é só de um ideal que formei e não segui e a compensação faz parte das escolhas pelas quais trabalhei. De fato, não gosto mesmo de ti. Sou assim.
Na medida em que vejo o que não quero, sei o que me seduz.

"Concluo que, para ser eu mesma, necessito da luz dos olhos de terceiros, e por isso não posso estar completamente seguro daquilo que eu sou."
VIRGINIA WOOLF, As Ondas, p.86

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Drosophila melanogaster é gay????

“Segundo a revista Nature, os investigadores encontraram uma relação entre os transportadores químicos do cérebro e a orientação sexual. No caso específico das moscas da fruta, Drosophila melanogaster, eles verificaram que o aumento ou diminuição de um marcador químico era capaz de causar alterações no seu comportamento sexual. Segundo a curta descrição, isto abre portas à possibilidade de se alterar o comportamento sexual por via farmacológica, o que sem dúvida é mais um desafio ético que nos convida à reflexão.” (texto retirado do site pensamentocritico.com, publicado em 22/4/2008)

Well, ela é colorida – gay! Ela tem um nome feminino – sapata! Ela é a mosca da fruta – veado! Mas ela é uma mosca. Não entendo lhufas de reações químicas cerebrais, mas especulo sobre a necessidade de controle que as pessoas desenvolvem sobre o desejo/amor alheio.
Partindo da premissa que as pessoas refletem seus próprios medos nas expectativas e rejeições que desenvolvem em relação a outras pessoas, aquele que jamais foi capaz de sentir-se confortável com o relacionamento entre gêneros iguais, certamente comprará a “pílula da Drosophila” e colocará no suco de seu filho que anda alongando as sílabas finais das palavras. A filha não apresenta namorado e vive grudada naquela amiga? “Drosophila” nela! Sem problemas novos, sem estranhamentos, sem convivência com o que difere de sua ideia de como a vida deve ser.
É isso aí! Vamos descobrir como controlar o comportamento diferente e depois, vamos descobrir como controlar a necessidade de controle, e depois, vamos lutar para poder sermos como quisermos, e depois, vamos estranhar outras coisas, e depois... vamos achar outra mosca na nossa sopa!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Rodeada de quê?


Tem uma música do Oswaldo Montenegro (passei o atestado) que chama “Sempre não é todo dia” e diz: “Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia. Eu acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia”. E a cada vez que ouço (geralmente da boca incauta de um adolescente) que vai amar, odiar, chorar, sofrer, curtir, dançar e qualquer outra coisa pra sempre, eu lembro da música.
Lembro também das inúmeras vezes nas quais vivi estas sensações de eternidade e elas vão ficando cada vez mais distantes na medida em que amadureço. Não sou tão pretensiosa, nem tão madura: ainda quero algumas coisas para sempre a despeito de qualquer lógica estraga-prazeres.
Mas também recebo bem sensações finitas porque elas são confortáveis: gosto de momentos de solidão, suporto dias ruins, dores, raiva, formaturas e ressaca porque – olha que máximo! – não duram pra sempre. Mesmo as coisas deliciosas são tão boas porque acabam. Um jantarzinho romântico, vinho e meia-luz, é ótimo! Todo dia, é uma merda. Quando que tu vais colocar um abrigo velho e ver um filmezinho à toa, sem compromisso com o amor?
Eu gosto mesmo é de estar rodeada de tudo que acaba, de tudo que eu lembro, do que é momento e do que parece eterno. Aí, na hora eu posso ter a liberdade de sentir o que quiser e de poder ser diferente. De ser como eu sou sempre, mas ainda bem que sempre não é todo dia.

domingo, 10 de maio de 2009

Pra dizer a verdade...

...a pessoinha aí é esquisita, feinha mesmo! Mas ficaria melhor achar a beleza da comédia na figura e pensar que este foi um momento ruim em muitos looks mais favoráveis. É um bebê! Filhotes são sempre fofos.
Verdade é algo que, por definição, já é confuso. Afinal, qualquer coisa pode estar de acordo com o real, dependendo do número de pessoas que atestam esta realidade.
Então, prefiro zilhões de vezes quem me diz que é sincero a quem me diz que é verdadeiro. Quem é sincero age sem a intenção de enganar e quem atesta a verdade quer demonstrar que a sua percepção de realidade é a que deve ser admitida. Acho um barato quando as pessoas dizem “mas eu estou sendo verdadeiro, estou sendo eu”. Oras, ainda que tu mintas, tu estás sendo verdadeiro e tu mesmo. Só que és tu mentindo. Tu mentindo, existe, é real, é, pois, uma verdade, ainda que talvez não seja a imagem que tu queira passar. O engraçado disto tudo é que tentar demonstrar que tu só fala a verdade é a mais absurda mentira que alguém pode pretender aplicar.
Seja, pois, sincero. Porque mesmo que tua opinião não corresponda ao senso comum de realidade, ela é tua. Não que seja mais fácil. Ser sincero requer uma personalidade fortíssima e um desapego genuíno da opinião alheia.
E aí? A pessoinha é esquisita ou não?

sábado, 9 de maio de 2009

Amanhã


Por quê? Qual a dificuldade de pensar e já deixar a questão resolvida pra não dar trabalho depois? Não sei, mas é irresistível.
A figura acima eu roubei do álbum de um “amigo” de pré-adolescência porque, ainda que não seja lisonjeiro, me identifiquei.
O mais estranho é que este “amigo” (aspas porque na verdade não vejo ele faz um tempão, mas o considero um amigo – então vou largas as aspas) é um cara que admiro e considero ter feito muuuuuita coisa. Aí me deu certa sensação de alívio porque pensei que talvez eu não seja uma causa perdida. Este meu amigo, mesmo sendo um procrastinador, fez uma faculdade de Filosofia, outra de Direito, pinta quadros, escreve e, de acordo com seu Orkut, se diverte. Isso tudo deixando algumas coisas pra depois.
Então, no geral, o cara faz coisas ótimas pro meu ponto de vista, mas insuficientes pra exigência dele.
Tenho essa outra “amiga” (aspas porque nunca a vi, só converso com ela, mas considero igual – então vou retirar as aspas), que é um caso pior. Ela, assumidamente, não faz nada do que deveria, mas escreve lindamente. Igual ao outro, aos meus olhos faz coisas ótimas, mas para sua exigência... ainda pouco.
Quero acreditar, então, que hoje fazemos coisas que são importantes hoje. Que amanhã ou semana que vem essas coisas poderão ser bobagens e que talvez a gente sinta falta de uma certa disciplina. Mas podemos acertar sem querer, e toda essa vontade irresistível de fazer o que não se deve no momento em que deveríamos estar fazendo outra coisa pode resultar em algo que gostamos muito como, por exemplo, escrever aqui.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Diferente de ti.





Tu chupas a manga ou a corta em pedaços?
Geralmente cortamos em pedaços quando estamos crentes que chupamos.
Que isso? Tô falando do que é diferente de ti, de mim, de todo mundo e que a gente custa aceitar. De um outro tipo de diversidade. Não daquela que defendemos com cores (arco-íris, preto, pardo -????-, amarelo). Na diversidade sexual, étnica e religiosa já estamos aprendendo a pensar. Estou falando na diversidade de ideias mesmo. Do sujeito ao lado dizendo que pensa diferente de ti sem que tu ou ele tentes convencer um ao outro da genialidade de seus argumentos.
Tu consegues? Eu não. Pra mim é um exercício ouvir opiniões diferentes da minha sem querer expor meu ponto de vista de tal forma que a outra pessoa reconheça nele o irrecusável convite à concordância.
É como uma luta de boxe: depende da tua capacidade de resistir aos golpes aplicados. Os resultados são sempre os mesmos: ganha um ou outro lado, empata (e compõem um terceiro argumento fruto da mistura de ambos – o que não deixa de ter gosto de pequena vitória), ou um deles não comparece (tu queres convencer, mas a pessoa fica te olhando com cara de peixe e dizendo: ‘ahã, ahã’).
Acho mesmo que só concordamos com tudo quando estamos apaixonados pela interlocutora, aí é aquela reação típica do encantamento: diante da maior merda dita, a imagem do “que fofo o que ela disse, boba mesmo”.
Então não adianta propagar que tu aceitas tudo o que é diferente, porque aceitar raciocínios diferentes exige certa adaptação, outra reflexão para ser aceito. E ainda bem que isso acontece porque estamos carecas de saber que a unanimidade é burra.
E assim, enquanto conhecem os diferentes argumentos que existem por aí, as pessoas se apaixonam uma pelas outras e pelas ideias das outras. E desapaixonam, discordando. E não suportam o texto de várias. Mas continuam assim, se conhecendo, se relacionando e enxergando o que é diferente de si.