segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minhas pequenas misérias

Arrumar ali, fazer uma visita, copiar um arquivo, mandar um e-mail, ler um artigo, escrever, costurar um botão, limpar embaixo da geladeira, comprar um presente, pagar uma conta... É inacreditável a quantidade de poeira que entra na nossa cabeça através da rotina que não organizamos ou que não selecionamos.
Às vezes fico remoendo pequeninas tarefas que só passou pela minha mente fazer e as tomo como uma série de compromissos a cumprir. Aí minha cabeça fica parecendo um depósito de donativos para a campanha da fraternidade. Várias coisas num amontoado imenso, onde facilmente posso perder de vista o que é mais importante, mais útil. É preciso selecionar de tempos em tempos.
Fiz isso neste final de semana. Foi ótimo. Parece um verso de rimas previsíveis, mas fui à praia e olhei aquele mar de proporções gigantescas frente às minhas pequenas misérias cotidianas, e foi nisso mesmo que meus problemas se transformaram. Ganhei novo fôlego ao ver as coisas do tamanho que elas são: não sei se elas diminuíram ou se eu me engrandeci, mas ficou muito mais fácil.
Quando achei que o mar já havia sido inspirador o suficiente para que eu aprendesse o que estava reservado pra este final de semana, veio a lição de onde nem esperava: o cachorrinho do meu pai reforçou a lição de que a persistência conduz ao êxito.
O nome do cachorro é Cabeça. Ele é doido por fugir de casa e dar uma voltinha com seus amigos sem-teto. Toda vez que alguém entra em casa ele vai lá e testa o portão com a patinha para ver se consegue abrir. Já fugiu várias vezes. Não tem perigo, volta sozinho umas horas depois, fedendo muito. Estes tempos, contou meu pai, o Cabeça se aprimorou: ao ver a porta do carro aberta, entrou, apertou o botão do controle remoto e saiu rachando pelo portão que se abria lentamente. O cão virou um profissional das fugas!
Voltei da praia assim, tentando mais, resolvendo tudo mais fácil, com ideias fluindo melhor e sem tanta pressa. A vida já estava boa, agora com as coisas tendo sua importância mais aparente, minhas misérias ficaram do tamanho que elas realmente são. Mês que vem vou olhar o mar outra vez e fazer um carinho no Cabeça.

sábado, 16 de maio de 2009

Tô nem tchuns pra tua preguiça!

Pode até ser egoísta, mas tô me lixando pra tua preguiça. Já declarei que deixo algumas coisas para amanhã e que sou simpática ao hedonismo. E agora tu vens aí, atrapalhando meus planos. Como vou me entregar aos meus prazeres se pra isso eu preciso que tu ajas? Temos que entrar em um acordo. Intercalar nossas preguiças. Dias pares eu me entrego ao ócio, dias ímpares, tu.
Mas aí eu também já declarei que sou procrastinadora e mais, que tenho nervoso quando “não posso não fazer”. Se eu tiver que escrever nos dias pares, só terei inspiração nos ímpares. Sou do contra, além de tudo.
Então acho melhor nos afastarmos e deixar de criar falsas expectativas. Eu não farei o que tu queres e tu, tampouco farás o que desejo. Chega, acabou!
Mas aí também já declarei que não gosto de ser sempre do mesmo jeito, que me transformo dia-a-dia.
Façamos o seguinte: vamos contar justamente com o dia-a-dia, um de cada vez. De vez em quando eu posso te surpreender, outro dia serás tu a me presentear. Enquanto a gente quiser, não custa conferir.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mais do mesmo.

Tem um provérbio chinês que diz “Antes de pensar em mudar o mundo dê três voltas em sua casa”.
Há uma facilidade impressionante em resolvermos os problemas alheios e não enxergarmos os nossos. Conheço gente que se repete em suas atitudes de sabotagem – aos outros e a si - e consegue pensar que isso é uma de suas inúmeras qualidades. Pior. Consegue pensar que SÓ possui qualidades. Qualquer deslize foi falta de compreensão dos demais. E segue fazendo mais do mesmo.
Já me vi, igualmente, cometendo erros grosseiros quando já tinha os cometido e, portanto, já deveria ter aprendido com eles. Acho que porque naquele momento pensava que ter uma visão do mundo é ver o mundo ao redor, sem incluir-se. Aí a gente enxerga todos e não vê a si próprio. E critica todos e não entende porque as pessoas não agem como nós.
Na minha casa tem muito por fazer, mas é um lugar onde gosto de estar. Acho mesmo que ela permanecerá em constante reforma. Mas consegui uma equipe ótima: minhas relações são completas e imperfeitas como devem ser.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Eu realmente não gosto de ti.

Nunca me senti confortável com este teu cabelinho liso cheio de tic-tacs e as canetas coloridas que carregavas junto ao teu caderno completo. Não gostava das tuas regras gastronômicas, do teu alface e queijo minas. Achava uma hipocrisia quando tu enchias a cara na noite e no outro dia dizias que não lembrava das cagadas que tinhas feito. Tua busca pelo namorado com o qual casarias – e essa paranóia por casamento – me enchiam o saco.
Sentia faíscas no teu olhar quando percebias que dentro de toda minha imperfeição estava num dia melhor que o teu. Afinal, dizia Paulo Gaudêncio, que nada pior para um santo que a felicidade de um pecador. Aí parei, não convivia mais contigo. Pra não me irritar. Porque sabia que não era contigo que eu gostaria de conversar.
Adiantou na medida em que não mais te vi e, pra mim funciona a máxima de que o que os olhos não veem o coração não sente. Retiro facilmente o passado desagradável da minha vida. Mas basta mostrar uma foto, te ver de longe ou saber de ti que volta a sensação desconfortável de saber que não sou boazinha, que não sigo tuas regras, que não como salada todo dia, que encho a cara e lembro de tudo depois. Mas a compensação é maior que a culpa, então sigo com meus pecados. Porque a culpa é só de um ideal que formei e não segui e a compensação faz parte das escolhas pelas quais trabalhei. De fato, não gosto mesmo de ti. Sou assim.
Na medida em que vejo o que não quero, sei o que me seduz.

"Concluo que, para ser eu mesma, necessito da luz dos olhos de terceiros, e por isso não posso estar completamente seguro daquilo que eu sou."
VIRGINIA WOOLF, As Ondas, p.86

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Drosophila melanogaster é gay????

“Segundo a revista Nature, os investigadores encontraram uma relação entre os transportadores químicos do cérebro e a orientação sexual. No caso específico das moscas da fruta, Drosophila melanogaster, eles verificaram que o aumento ou diminuição de um marcador químico era capaz de causar alterações no seu comportamento sexual. Segundo a curta descrição, isto abre portas à possibilidade de se alterar o comportamento sexual por via farmacológica, o que sem dúvida é mais um desafio ético que nos convida à reflexão.” (texto retirado do site pensamentocritico.com, publicado em 22/4/2008)

Well, ela é colorida – gay! Ela tem um nome feminino – sapata! Ela é a mosca da fruta – veado! Mas ela é uma mosca. Não entendo lhufas de reações químicas cerebrais, mas especulo sobre a necessidade de controle que as pessoas desenvolvem sobre o desejo/amor alheio.
Partindo da premissa que as pessoas refletem seus próprios medos nas expectativas e rejeições que desenvolvem em relação a outras pessoas, aquele que jamais foi capaz de sentir-se confortável com o relacionamento entre gêneros iguais, certamente comprará a “pílula da Drosophila” e colocará no suco de seu filho que anda alongando as sílabas finais das palavras. A filha não apresenta namorado e vive grudada naquela amiga? “Drosophila” nela! Sem problemas novos, sem estranhamentos, sem convivência com o que difere de sua ideia de como a vida deve ser.
É isso aí! Vamos descobrir como controlar o comportamento diferente e depois, vamos descobrir como controlar a necessidade de controle, e depois, vamos lutar para poder sermos como quisermos, e depois, vamos estranhar outras coisas, e depois... vamos achar outra mosca na nossa sopa!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Rodeada de quê?


Tem uma música do Oswaldo Montenegro (passei o atestado) que chama “Sempre não é todo dia” e diz: “Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia. Eu acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia”. E a cada vez que ouço (geralmente da boca incauta de um adolescente) que vai amar, odiar, chorar, sofrer, curtir, dançar e qualquer outra coisa pra sempre, eu lembro da música.
Lembro também das inúmeras vezes nas quais vivi estas sensações de eternidade e elas vão ficando cada vez mais distantes na medida em que amadureço. Não sou tão pretensiosa, nem tão madura: ainda quero algumas coisas para sempre a despeito de qualquer lógica estraga-prazeres.
Mas também recebo bem sensações finitas porque elas são confortáveis: gosto de momentos de solidão, suporto dias ruins, dores, raiva, formaturas e ressaca porque – olha que máximo! – não duram pra sempre. Mesmo as coisas deliciosas são tão boas porque acabam. Um jantarzinho romântico, vinho e meia-luz, é ótimo! Todo dia, é uma merda. Quando que tu vais colocar um abrigo velho e ver um filmezinho à toa, sem compromisso com o amor?
Eu gosto mesmo é de estar rodeada de tudo que acaba, de tudo que eu lembro, do que é momento e do que parece eterno. Aí, na hora eu posso ter a liberdade de sentir o que quiser e de poder ser diferente. De ser como eu sou sempre, mas ainda bem que sempre não é todo dia.

domingo, 10 de maio de 2009

Pra dizer a verdade...

...a pessoinha aí é esquisita, feinha mesmo! Mas ficaria melhor achar a beleza da comédia na figura e pensar que este foi um momento ruim em muitos looks mais favoráveis. É um bebê! Filhotes são sempre fofos.
Verdade é algo que, por definição, já é confuso. Afinal, qualquer coisa pode estar de acordo com o real, dependendo do número de pessoas que atestam esta realidade.
Então, prefiro zilhões de vezes quem me diz que é sincero a quem me diz que é verdadeiro. Quem é sincero age sem a intenção de enganar e quem atesta a verdade quer demonstrar que a sua percepção de realidade é a que deve ser admitida. Acho um barato quando as pessoas dizem “mas eu estou sendo verdadeiro, estou sendo eu”. Oras, ainda que tu mintas, tu estás sendo verdadeiro e tu mesmo. Só que és tu mentindo. Tu mentindo, existe, é real, é, pois, uma verdade, ainda que talvez não seja a imagem que tu queira passar. O engraçado disto tudo é que tentar demonstrar que tu só fala a verdade é a mais absurda mentira que alguém pode pretender aplicar.
Seja, pois, sincero. Porque mesmo que tua opinião não corresponda ao senso comum de realidade, ela é tua. Não que seja mais fácil. Ser sincero requer uma personalidade fortíssima e um desapego genuíno da opinião alheia.
E aí? A pessoinha é esquisita ou não?

sábado, 9 de maio de 2009

Amanhã


Por quê? Qual a dificuldade de pensar e já deixar a questão resolvida pra não dar trabalho depois? Não sei, mas é irresistível.
A figura acima eu roubei do álbum de um “amigo” de pré-adolescência porque, ainda que não seja lisonjeiro, me identifiquei.
O mais estranho é que este “amigo” (aspas porque na verdade não vejo ele faz um tempão, mas o considero um amigo – então vou largas as aspas) é um cara que admiro e considero ter feito muuuuuita coisa. Aí me deu certa sensação de alívio porque pensei que talvez eu não seja uma causa perdida. Este meu amigo, mesmo sendo um procrastinador, fez uma faculdade de Filosofia, outra de Direito, pinta quadros, escreve e, de acordo com seu Orkut, se diverte. Isso tudo deixando algumas coisas pra depois.
Então, no geral, o cara faz coisas ótimas pro meu ponto de vista, mas insuficientes pra exigência dele.
Tenho essa outra “amiga” (aspas porque nunca a vi, só converso com ela, mas considero igual – então vou retirar as aspas), que é um caso pior. Ela, assumidamente, não faz nada do que deveria, mas escreve lindamente. Igual ao outro, aos meus olhos faz coisas ótimas, mas para sua exigência... ainda pouco.
Quero acreditar, então, que hoje fazemos coisas que são importantes hoje. Que amanhã ou semana que vem essas coisas poderão ser bobagens e que talvez a gente sinta falta de uma certa disciplina. Mas podemos acertar sem querer, e toda essa vontade irresistível de fazer o que não se deve no momento em que deveríamos estar fazendo outra coisa pode resultar em algo que gostamos muito como, por exemplo, escrever aqui.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Diferente de ti.





Tu chupas a manga ou a corta em pedaços?
Geralmente cortamos em pedaços quando estamos crentes que chupamos.
Que isso? Tô falando do que é diferente de ti, de mim, de todo mundo e que a gente custa aceitar. De um outro tipo de diversidade. Não daquela que defendemos com cores (arco-íris, preto, pardo -????-, amarelo). Na diversidade sexual, étnica e religiosa já estamos aprendendo a pensar. Estou falando na diversidade de ideias mesmo. Do sujeito ao lado dizendo que pensa diferente de ti sem que tu ou ele tentes convencer um ao outro da genialidade de seus argumentos.
Tu consegues? Eu não. Pra mim é um exercício ouvir opiniões diferentes da minha sem querer expor meu ponto de vista de tal forma que a outra pessoa reconheça nele o irrecusável convite à concordância.
É como uma luta de boxe: depende da tua capacidade de resistir aos golpes aplicados. Os resultados são sempre os mesmos: ganha um ou outro lado, empata (e compõem um terceiro argumento fruto da mistura de ambos – o que não deixa de ter gosto de pequena vitória), ou um deles não comparece (tu queres convencer, mas a pessoa fica te olhando com cara de peixe e dizendo: ‘ahã, ahã’).
Acho mesmo que só concordamos com tudo quando estamos apaixonados pela interlocutora, aí é aquela reação típica do encantamento: diante da maior merda dita, a imagem do “que fofo o que ela disse, boba mesmo”.
Então não adianta propagar que tu aceitas tudo o que é diferente, porque aceitar raciocínios diferentes exige certa adaptação, outra reflexão para ser aceito. E ainda bem que isso acontece porque estamos carecas de saber que a unanimidade é burra.
E assim, enquanto conhecem os diferentes argumentos que existem por aí, as pessoas se apaixonam uma pelas outras e pelas ideias das outras. E desapaixonam, discordando. E não suportam o texto de várias. Mas continuam assim, se conhecendo, se relacionando e enxergando o que é diferente de si.