Arrumar ali, fazer uma visita, copiar um arquivo, mandar um e-mail, ler um artigo, escrever, costurar um botão, limpar embaixo da geladeira, comprar um presente, pagar uma conta... É inacreditável a quantidade de poeira que entra na nossa cabeça através da rotina que não organizamos ou que não selecionamos.Às vezes fico remoendo pequeninas tarefas que só passou pela minha mente fazer e as tomo como uma série de compromissos a cumprir. Aí minha cabeça fica parecendo um depósito de donativos para a campanha da fraternidade. Várias coisas num amontoado imenso, onde facilmente posso perder de vista o que é mais importante, mais útil. É preciso selecionar de tempos em tempos.
Fiz isso neste final de semana. Foi ótimo. Parece um verso de rimas previsíveis, mas fui à praia e olhei aquele mar de proporções gigantescas frente às minhas pequenas misérias cotidianas, e foi nisso mesmo que meus problemas se transformaram. Ganhei novo fôlego ao ver as coisas do tamanho que elas são: não sei se elas diminuíram ou se eu me engrandeci, mas ficou muito mais fácil.
Quando achei que o mar já havia sido inspirador o suficiente para que eu aprendesse o que estava reservado pra este final de semana, veio a lição de onde nem esperava: o cachorrinho do meu pai reforçou a lição de que a persistência conduz ao êxito.
O nome do cachorro é Cabeça. Ele é doido por fugir de casa e dar uma voltinha com seus amigos sem-teto. Toda vez que alguém entra em casa ele vai lá e testa o portão com a patinha para ver se consegue abrir. Já fugiu várias vezes. Não tem perigo, volta sozinho umas horas depois, fedendo muito. Estes tempos, contou meu pai, o Cabeça se aprimorou: ao ver a porta do carro aberta, entrou, apertou o botão do controle remoto e saiu rachando pelo portão que se abria lentamente. O cão virou um profissional das fugas!
Voltei da praia assim, tentando mais, resolvendo tudo mais fácil, com ideias fluindo melhor e sem tanta pressa. A vida já estava boa, agora com as coisas tendo sua importância mais aparente, minhas misérias ficaram do tamanho que elas realmente são. Mês que vem vou olhar o mar outra vez e fazer um carinho no Cabeça.








