quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando a gente se reconhece

Só dá para abrir espaço para o Caio, que descreve perfeitamente o conforto de se ver no outro. O reconhecimento, entretanto, não obsta a surpresa da descoberta de se ver diferente, com outras experiências que jamais foram suas.

Trecho de Aqueles dois
(Caio Fernando Abreu)

“A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.
Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.”

domingo, 7 de junho de 2009

Não é triste, é sério.


O amadurecimento precisa ser triste? Não consigo acreditar nessa necessidade de sofrimento para que possamos alcançar o crescimento. Acho que isso é uma idéia de quem não consegue aceitar que coisas tristes existem e só. Querer ser feliz todo o tempo equivale a perseguir a paz mundial. Não vai acontecer. Essa discussão sequer me chama atenção.
Mas mesmo que saibamos que isso acontece, surpreende a inconformidade das pessoas diante de um rosto que não sorri. Não é desejável nem ver, nem pensar. Em algumas situações, não é nem tristeza, é só recolhimento.
Aconteceu comigo. Eu estava séria, não triste nem emburrada. Quieta. Estava pensando em coisas importantes pra mim. Mas vi que as pessoas reagiam a isso: as que me amavam, preocupadas; as que me conheciam, curiosas; e algumas outras, pra catar mesmo. Mas todos queriam saber o que estava acontecendo. Como explicar? Deu vontade de dizer: não é triste, é sério... tô amadurecendo. Mas não deu pra fazer isso. Seria mais confuso do só dizer que estava triste mesmo. Aí fui preguiçosa, disse que estava cansada. Ninguém questiona muito se tu diz que ta cansada. A não ser que tu seja vadia e não faça nada nunca, esse é um argumento válido. Cansaço tem seu mérito.
Mas é assim, preciso avisar a todos: às vezes, amadureço em público. Não fiquem surpresos, agradeço a preocupação e aprecio este carinho. Quando eu estiver triste mesmo, vou fazer uso do colo oferecido porque não recuso um dengo. Mas se eu agradecer e disser que está tudo bem, confiem em mim. Não é triste, é sério.

“Junto dele, Maurício ria também, mas assim – sozinho –, o que sentia era medo. Medo misturado a um pouco de respeito, desconfiança. Os homens quase todos de caras barbudas, olhares sérios. As mulheres de ares meio masculinos, rostos sérios. Todos sérios.” (Caio Fernando Abreu, Limite Branco, p.65)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A fome e a vontade de comer


Adri,
Achei esta foto no Orkut de uma aluna nossa com a seguinte legenda: “Adriana e Cintia minhas professoras prediletas desse anoo amoo muiito elas e elas vão me passar esse ano né profs”.
Óbvio que comentei a foto e escrevi: “Depois dessa!!!! É bem provável que sim... vai alimentando teu álbum aí e dizendo como nós somos queridas q tu passa certo!!!! ((Se tirar A na nossa matéria tb ajuda!) =D “
Depois, revendo ((sou uma revisora contumaz)), me dei conta que tanto a foto como o diálogo que acompanha não poderia ser mais fiel à nossa rotina. Nos vemos diariamente com esta tranquilidade aí de cima: o encontro é sempre um momento zen, mesmo no meio da maior loucura possível e acaba, invariavelmente, com bom humor. Temos nossos momentos de filosofar, de questionar, de encaixar as informações e, no final, de fazer piada do que falamos. É fácil.
E quem foi que apostou nesta parceria? Nem eu jogava 10 pilas aí. Tínhamos simpatia recíproca, mas aparentemente, poucas coisas em comum. Aliás, a aparência dá outro toque especial e contraditório: tu, alta, super imponente, mas de voz mansa e uma calma quase budista; eu, pequena, mas de voz rouca que não acalma, que vira trovão. Tu, brisa e eu, tempestade. Mas funcionamos bem por causa de nossas diferenças: não sabemos as mesmas coisas, não interpretamos do mesmo jeito, mas ouvimos uma à outra e adoramos o que aprendemos com nossas informações divergentes.
Pensei que seríamos crias da Rosalí e que manteríamos aquela cordialidade de quem compartilhou a mesma fonte de conhecimento. Mas foi justamente a saída dela que formou esta nova dupla. E ela é tri faceira com isto. Deve estar adorando nos ver trabalhando juntas porque somos o extrato daquilo que ela pretendia: conhecimento desprovido de preconceito, alimentado pelas diferenças.
Eu, certo, tô tirando o maior proveito disso! Te adoro, te adoro, te adoro.
Beijocas,
Cíntia.