Tá certo. Por vezes queremos bagunçar a vida, chutar o balde, esvaziar a cabeça e encher os canecos. Até acho que a maioria das pessoas faz isso com alguma freqüência porque agora “desestressar” franqueia um monte de comportamentos reprimidos. É a desculpa dos adultos pra poder despiroquiar um pouco. Mas ainda assim, há um limite estabelecido. Você pode ser um pouco má – é até charmoso – você não pode é ser “marvada”.Então, o que limita nossas ações? Oras, o de sempre: a necessidade de viver em grupo e, eventualmente, depender de outras pessoas, afetiva ou materialmente. A gente acaba dependendo da avaliação de outras pessoas, desde as que não gostamos até as que queremos, ardentemente, que nos admirem e amem. É por isso que não rompemos com o imperativo categórico e seguimos tentando alcançar máximas aceitáveis que não façam as pessoas nos banir do convívio social.
Não precisamos falar em Kant, afinal, nossos pais reproduziam exemplos melhor que ele: “Nunca se sabe o dia de amanhã!”, ou “Você gostaria que fizessem isto contigo?”, ou ainda, “Deixa, quando você tiver filhos, vai ver do que eu tô falando!”.
Depois, quando crescemos um pouco mais, os exemplos abstraem-se, mas permanecem: “Tudo o que você faz, volta pra você!”, “Bem feito! Cuspiu pra cima, viu só?”.
E de repente, a menina má deixa de ser tão má assim.
Bom, é uma série de repetições que nos coloca na linha e nos enche de culpa. Mas também é isso que faz com que tu pagues o dinheiro que me pediu emprestado ou que eu tenha motivos pra não te emprestar mais; ou que faz com que eu vá ao teu aniversário, mesmo quando é final de campeonato, ou que te impele a me oferecer um pedaço do sanduíche que tu tá amando comer sozinha.
Mas, se por acaso, um dia, alguém de nós sair um pouco do roteiro, tudo bem. Isto é pimenta, dá um pouco de tempero à vida. Aí vamos reclamar mutuamente, nos chamaremos de egoístas, loucas, exporemos nossos motivos, ficarei emburrada por mais tempo que tu porque sou má. Mas voltaremos às boas, afinal, sou apenas um pouco má.

Conheci algumas meninas más e elas me pareceram estar tentando agradar... de um jeito estranho. Talvez temessem ser aborrecidas, sem saber que a maldade tende a ser manjada. Costumo dizer que há duas formas de se ser obediente ao - ou pelo menos pautado pelo - outro. A óbvia ululante é fazer como o outro pede, cobra, exige etc. A apenas um pouco menos óbvia é ser do contra. A liberdade é completamente outra coisa.
ResponderExcluirEm tempo, Kant tinha aquela curiosa liberdade consistente em ser obediente ao que a razão determina, hehe. Antes, Agostinho (o "santo", não o da grande família) tinha aquela noção de liberdade como a humilde obediência ao Espírito Santo, enviado pela Divina Providência, mediante requisição da parte pecadora, claro.